terça-feira, 25 de maio de 2010

Entrevista de Fundo

“A arte, a cultura e a criatividade ao serviço de uma cidade pode ser transformadora”

Carlos Martins, Director do Projecto “Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura”, conversa sobre o evento organizado pela Fundação Cidade de Guimarães e reflecte sobre as mudanças que se vão operar na cidade. Mostra, ainda, a sua perspectiva acerca da comunidade local e sobre o papel da Universidade do Minho no projecto.

Catarina Martins: Em termos práticos, o que é que na sua opinião “Guimarães 2012” vai trazer à cidade?

Carlos Martins: O projecto não pretende resolver os problemas da cidade ou da região, mas tem consciência desses problemas e quer estar ao serviço da sua resolução. Não é um projecto de um ano que altera uma comunidade de forma estrutural, mas tem o tempo suficiente, quer no âmbito da sua preparação, quer da sua implementação, para ilustrar possibilidades diferentes na vida da comunidade.

No caso específico de Guimarães, muitos problemas que a cidade vive têm a ver com a mudança de um modelo de vida urbana e de vida económica e com uma dependência ao nível das empresas locais ligadas aos sectores tradicionais, nomeadamente ao têxtil. Temos vindo a sentir que essa competitividade que Guimarães tinha tem se vindo a perder em desfavor de alguns mercados emergentes. Deixamos de competir entre Famalicão e Guimarães, ou Braga ou Barcelos, e estamos a competir a nível global.

A Capital da Cultura pretende demonstrar que a arte, a cultura e a criatividade ao serviço de uma cidade pode ser transformadora. Pode transformar o modelo cultural, mas também o modelo social e o modelo económico. Mas isso só se faz, de facto, se as pessoas estiverem envolvidas no processo, se perceberem que é o seu futuro que está em causa.

Guimarães tem um reconhecimento internacional quanto às competências que desenvolveu ao nível da produção cultural, mas ainda mais ao nível do património e ao nível da programação cultural. Não tem uma grande quantidade de artistas profissionais a residir e a produzir negócios na cidade, e é isso que a Capital Europeia da Cultura (CEC) quer estimular e promover. Tendo consciência que hoje a economia da cultura é algo de relevante na sociedade ocidental contemporânea, Guimarães quer estar nessa agenda de competição entre cidades. Por isso, a Capital da Cultura não quer mudar nada, mas quer estar ao serviço dessa mudança, inspirando-a na população mais jovem. Daí que a população universitária seja especialmente importante para o projecto.

Catarina Martins: Considera que “Guimarães 2012” é um projecto com continuidade não só nesse ano?

Carlos Martins: Estes projectos têm sempre uma característica de efemeridade e têm uma característica estruturante para a região, e as duas dimensões podem coexistir de forma tranquila. É evidente que Guimarães só será a CEC naquele ano, daí que, percebendo que o projecto é efémero, se ele for bem desenhado, pode contribuir para uma mudança do modelo estrutural.

Por exemplo, ao nível das estruturas que vão ser criadas, e quando se estuda com mais detalhe o projecto, percebe-se que grande parte dos equipamentos que vão ser construídos são espaços de trabalho diário, onde artistas, designers, arquitectos ou criadores poderão trabalhar, investigar e mostrar o seu trabalho em permanência em espaços de incubação económica e artística.

Catarina Martins: Em que é que se traduz o protocolo estabelecido entre a Fundação Cidade de Guimarães e a Universidade do Minho (UM)?

Carlos Martins: Traduz-se num conjunto de possíveis colaborações que a Universidade quer desenvolver com a Capital da Cultura, nomeadamente em 3 níveis. Por um lado, há estruturas da Universidade que já têm uma relação com o universo cultural, artístico e programático, nomeadamente, as escolas mais ligadas às dimensões culturais, que serão óbvios parceiros na programação. Falamos desde áreas de investigação ligadas à Memória, à História, até à produção contemporânea, à Música e à Arquitectura. Ou seja, há uma série de áreas de investigação e de produção de conhecimento que a Universidade hoje já desenvolve e que poderão ser incorporadas no âmbito da CEC, quer ao nível da licenciatura, quer ao nível do mestrado. Falo, por exemplo, do Mestrado em Artes Digitais que se desenvolve em Guimarães.

Por outro lado, o campus de Azurém tem uma fortíssima presença na dimensão tecnológica, nomeadamente com os cursos de Engenharia, e acreditamos que esta relação entre arte, cultura e tecnologia é decisiva no futuro. Cada vez mais artistas utilizam plataformas tecnológicas, cada vez mais pessoas ligadas às tecnologias necessitam dos conteúdos e daquilo que os artistas desenvolvem a nível estético e simbólico. Achamos que a CEC pode projectar, fomentar e criar uma nova aproximação entre estes dois mundos. Como tal, está previsto um festival de artes digitais e um trabalho ao nível do design.

A Universidade tem uma série de competências ao nível do estudo do território e ao nível da avaliação dos impactos da CEC, nomeadamente na área das Ciências Sociais, sejam eles económicos, de públicos, sociais e culturais. Uma coisa é o nosso desejo, outra coisa há-de ser a realidade, e é essa realidade que a UM nos vai ajudar a compreender.

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